Dapieve, literatura pop, ruivas e o Rio de Janeiro
Posted by Alisson Sellaro in Leitura, Música on 27 de November de 2009
De volta à tela do computador, Bernardinho tentou entender o que acabara de se passar. Era quinta-feira. Ele entregara o CD-R com as músicas do R.E.M. na segunda-feira de manhã. Cautelosamente, evitara travar novo contato com Adelaide, esperando que ela fizesse algum movimento. Nada. Sessenta horas inteiras sem nem um oi. Chegou a pensar que a carona houvesse esgotado tudo o que tinham para viver na vida um do outro. “dramático paca pô” E, como tantas outras mulheres na vida do homem médio, a garota do Leblon estivesse fadada a não ser fodida, fadada a desbotar na memória da bronha. Sem retorno, o tesão arrefece, mais cedo ou mais tarde. (Bem, mesmo com retorno também.) O pensamento de que tudo não passara de coisa alguma chegava a reconfortar Bernardinho. “ao menos o impulso de comê-la está mostrando que os sistemas estão funcionando”, pensara, na terça-feira à tarde ou na quarta-feira à noite. Então, sem mais nem menos, ela entra na sua sala e, diante de seus colegas de trabalho, demonstra uma intimidade que eles sequer imaginavam. Pior: uma intimidade passada que insinuava uma intimidade futura ainda meior. Melhor: uma intimidade passada que prometia uma intimidade futura ainda maior.
Este é um dos parágrafos do romance de estréia de Arthur Dapieve, “De cada amor tu herdarás só o cinismo”. O livro, de 2004, caiu nas minhas mãos por acaso, ao bisbilhotar uma pilha de livros desorganizados no apartamento de um grande amigo que sempre me hospeda quando tenho a sorte de ir ao Rio de Janeiro.
Apesar do título, trecho de O mundo é um moinho, uma das canções mais famosas de Cartola, o livro começa no fim do show do R.E.M. no Rock In Rio 3, dia 14 de janeiro de 2001, no fim de It’s the end of the world as we know it (and I feel fine) – que, aliás, realmente foi a última música do show real no dia 14/1/2001. O conflíto novo-fenômeno-revival-da-música-brasileira vs. rock-é-a-única-coisa-digna-no-mundo (eu ainda acho que os dois convivem lindamente) é mais um dos conflítos que temperam o relacionamento de Bernardinho, publicitário quarentão, e Adelaide, ninfetinha do Leblon, sua estagiária.
O livro é delicioso do início ao fim e vale cada centavo por ser uma visão bem humorada sobre relações (em diversos níveis e formas), música brasileira, música pop, auto-mazelice e as eternas buscas sem propósito que nós, gente, travamos dia a dia.
Dapieve, jornalista e colunista do Caderno 2 do O Globo desde que o mundo é mundo (calcula-se que isto seja desde 1993), tem dois livros sobre rock brasileiro e tem a veia pop nos temas e nas formas de escrever.
Divirtam-se.
Um que Tenha – nota rápida
Posted by Alisson Sellaro in Música on 19 de November de 2009
Só para constar o contra-ponto (meio tardio) do que falamos antes: o Um Que Tenha voltou. E voltou melhor. Com domínio próprio e uma pequena reformulação visual.
Fulanosicrano, bem vindo de volta!
Quando o normal vira hype 2: Vinil
Posted by Alisson Sellaro in Música, Tecnologia on 18 de November de 2009
Me lembro que quando voltava do shopping, se ainda fosse claro, eu escondia o discão no espaço – que à época existia – entre minha perna e o banco do motorista, o sr. meu pai. O receio maior do mundo inteiro era que o disco “empenasse”.
Algum pouco tempo depois, pois era e ainda sou garoto novo, o CD veio avassalador, com sua qualidade cristalina de som. Tá certo que não havia aquele simpático som da agulha passando por cima da poeira dos discos e que aquele som geralmente mais grave acabou dando o lugar a um médio-agudo mezzo irritante, mas legal pra cacete, dada a novidade.
Muitos de nós, e eu inclusive, putas não-tão-velhas para novidades, abandonamos os coitados dos vinís e começamos a preferir passar horas lendo os detalhes de como os discos eram produzidos, literatura fácil dos encartes da época. Aliás, eu me achava muito foda porque conseguia, via paitorcínio, alguns CDs DDDs a mais que meus amigos de colégio, que iam na linha dos AADs ou, no máximo, ADDs. Ê nostalgia…

O cão mais hype da história da música
Mas eis que os ciclos se fecham. E hoje, que nem o postal de ontem, vinil deixou de ser entulho e virou artigo de invejáveis e invejosos colecionadores. Quem diria? Dos lados de cá, existem feiras e mais feiras, lojas e mais lojas, das mais simples às mega-redes – aquelas negociadas na BM&F-BOVESPA – com um católogo de fazer qualquer RCA Victor tremer.
Hoje, com algumas doses e garrafas a mais de voo, vejo que fui um tonto de deixar para lá os meus discos (e os do meu pai) só por paixão tecnológica ou do novo. Os quase finados – por enquanto – CDs, as já maduras MP3s e os not so cool mas com qualidade excelente FLACs e Ogg Vorbis têm suas praticidades. Mas o vinilzão tem seu valor. Peso, graves, capas, processos de lavagem e história. Muita história.
Enquanto o ciclo roda, fico por aqui, com o iPod tocando o Revolver, dos Beatles. Aquele de 1969, com masterização mono, para ficar melhor na maioria esmagadora das vitrolas do fim da década de 1960 – aliás, VICTROLA e Victor, sabe? Aquele mesmo da RCA…
Quando o normal vira hype 1: Cartões postais
Posted by Alisson Sellaro in Tecnologia on 17 de November de 2009
Antes, era normal. Praxe. Depois, se torna feio. Demodè. Ruim, até. E pronto… chegou ao fim do ciclo e o que era normal cai no mais absoluto desuso. Até, pelo menos, alguém reinventar a coisa, dando uma roupagem vintage, um ar cult uma mão de glamour. Pronto novamente: o negócio voltou a ser bacana.
Alguém aí lembra de cartões postais? Não são aqueles mini-anúncios que ficam nos banheiros dos lugares mais badalados de qualquer cidade média a grande do Brasil. Pasmem, algum dia havia pessoas que se utilizavam dos tais cartões para mandar notícias e, de quebra, dar uma pequena impressão ao destinatário do lugar em que o remetente se encontrava.
Com e-mails e uma penca de outras formas mais ágeis de comunicação, os postais, junto com cartas, telegramas e afins, foram caindo no desuso e no esquecimento. Pelo menos até a tal da fase glamurosa apontar no horizonte.
Semana passada caiu no meu colo o Post Crossing. Um projeto on-line que põe pessoas interessadas em receber cartões postais não virtuais em contato.
A fórmula é simples e batida das comunidades virtuais: cria-se um rede social onde você cria uma conta, adiciona algumas informações sobre você (o tal perfil), inclui sua localização geográfica e zas! A partir daí, você pode pedir ao sistema que indique o endereço de um outro interessado em cartões postais à moda antiga. O sistema te manda um e-mail com as informações. Você vai numa banca de revistas ou nos correios, mata o atendente de susto ao pedir para ver os cartões postais, anota um código que o sistema te deu no cartão e submete para o destinatário.
Você “espera, espera e espera” (segundo o site), enquanto o seu cartão postal cruza o espaço necessário para chegar ao destinatário. Este, quando recebe seu cartão, vai ao Post Crossing e digita o tal código. O sistema entende que você realmente enviou o cartão. Contabiliza a distância que o cartão viajou de você até o destinatário para você e o insere na lista de recebedores de cartões. Até que outro usuário solicite o endereço de um destinatário interessado e este seja você. Fechou o ciclo.
A ideia é simples e bacana. De mais a mais, serve para que lembremos de como as coisas costumavam ser e que tenhamos alguma referência fisicamente existente de cantos tão longes ou tão pertos. A depender da forma e do referencial.
Samba da Vela
Posted by Alisson Sellaro in Música on 16 de November de 2009
É quase uma instituição do samba paulistano. Sempre às segundas-feiras, a comunidade do Samba da Vela se reúne com o propósito pra lá de nobre de manter acesa a chama do samba, cultuando os grandes do passado, sem perder o olho no futuro.
A partir das 20:30, na Casa de Cultura de Santo Amaro, a comunidade monta a roda para que os que desejarem apresentem seus sambas. Da própria comunidade, surgem os papéis com letras. Os rápidos repasses de tons ou os universais lá-rá-rás e já foi. Se o samba agradar à roda, em poucos segundos os cantares tímidos viram palmas cadenciadas e um coro que arrepia até os mais céticos.
A comunidade da vela segue noite adentro entoando os sambas até que a vela, rainha absoluta no centro da mesa, se apaga. Neste momento, o samba termina e a roda se despede sempre cantando A Comunidade Chora (já rolou o vídeo da música por aqui antes)
Em 2010, a comunidade completa 10 anos de um projeto de sucesso. Já existe um caderno com os sambas escolhidos pela comunidade publicado e foi gravado um disco com 20 destas composições (Um Que Tenha…).
Para quem está em São Paulo em qualquer segunda-feira do ano, não deixem de ver. É uma experiência pra lá de bacana pra quem gosta de música. Para os que não estão por aqui, fica o documentário feito pela 13 Produções, em 2007, que mostra um pouco do clima da roda.
Banksy e a arte de rua
Posted by Alisson Sellaro in Artes Plásticas on 10 de November de 2009
Se você parar pra pensar bem, entre uma cerveja e outra num bar qualquer da cidade – qualquer que seja a sua – as cidades são grandes pavilhões de exposição. Da beleza mais singela à mazela mais gritante, as cidades são enormes potes com gente dentro. E gente é um troço metido a fazer-destruir-refazer.
Por mais superficial que seja esta filosofia de botequim – Deus abençoe as Brioscas! – a inquietação das pessoas tem consequências. Se boas ou más, aí depende. Ou, como se dizia por aí: vareia (sic para mim mesmo).
A história é que dia desses andava vendo livros sobre arte de rua e me deparei com uma peça interessante. Um livo de tijolinhos brancos, com um stencil que ilustrava um jovem ativista – daqueles que não se separam de um boné (indefectivelmente virado para trás) – arremessando um… buquê de flores.
Olhando mais de perto, o livro é cheio de uma irreverência nos seus textos e imagens. De um manifesto simples, daqueles que não se leva muito a sério, o autor compunha:
Some people become cops because they want to make the world a better place. Some people become vandals because they want to make the world a better looking place.
O tal livro é o Wall and Piece, do artista plástico e intervetor urbano britânico Banksy, que além de fazer arte cheia de mensagens políticas e humanas, ainda consegue realizar a proeza de ser um quase anônimo num mundo conectado que transformou George Orwell e seu 1984 em uma quase ingenuidade.
Bem humorado e ácido, pouco se sabe de Banksy, além do fato dele ser inglês, provavelmente de Bristol e ter nascido em meados da década de 1970. Começou sua expressão nas cidades por volta de 1992 (ou 1994?) com o grafite. Depois de uma péssima experiência, em que teve de ficar escondido por mais de uma hora embaixo de um caminhão abandonado e pingando óleo para fugir da polícia, Banksy decidiu aprimorar sua técnica através de stencils. Segundo ele próprio:
As I lay there listening to the cops on the tracks I realised I had to cut my painting time time in half or give up altogether. I was starting straight up at the stencilled plate on the bottom of a fuel tank when I realised I could just copy that style and make each letter three feet high. I got home at last and crawled into bed next to my girlfriend. I told her I’d had an epiphany that night and she told me to stop taking that drug ‘cos it’s bad for your heart
Algumas intervenções também fazem parte do trabalho de Banksy. De frases pintadas em animais até as simpáticas cabines telefônicas de Nova Iorque, Tudo parece virar meio e inspiração para mostrar que há muita coisa fora do lugar. E que a hipocrisia continua sendo o traço mais marcante do ser humano. Dentro ou fora das cidades.
Serrote número 3
Posted by Alisson Sellaro in Leitura on 9 de November de 2009
Boas notícias para marcar o retorno: a edição número 3 da revista de ensaios do Instituto Moreira Salles, Serrote, foi publicada.
A foto (acima) de capa, de Thomaz Farkas, foi tirada em São Paulo nas filmagens do documentário Subterrâneos do futebol, produzido em 1964 por Vladmir Herzog e dirigido por Maurice Capovilla. A foto traz uma pista para um dos ensaios da edição, que me despertou a curiosidade logo de cara: Roland Barthes em um texto de 1961 entitulado O que é esporte.
No site do Instituto Moreira Salles, há mais informações sobre o conteúdo do número 3 da revista. Não deixem de ver.
Se você quiser mais informações sobre a Serrote, algo já foi falado por aqui antes.
Fita K7 – Volume 1 – Para dançar na pista
Posted by Alisson Sellaro in Fita K7 on 11 de September de 2009
Primeira de muitas “mix tapes” (um nome fresco para as saudosas fitas K7 que gravávamos para os amigos há uns anos atrás).
Esta fita vem com o tema de pistas alternativas. Coisas dançantes que eu ouço ou ouvi por aí.
- Yeah Yeah Yeahs – Zero (0’0”)
- The Gossip – Heavy Cross (4’18”)
- MGMT – Kids (8’10”729)
- The Ting Tings – Great DJ (12’57”)
- Mika – Love Today (16’16”)
- 20 fingers – Lick It (20’06”)
- Frankie Valli – Beggin’ (Pilooski Edit) (24”56”)
Baixe o arquivo ou assine o podcast via iTunes ou manualmente. (Não está entendendo porra nenhuma? Eu te explico.)
É a interação, sr. político!
Posted by Alisson Sellaro in Política, Tecnologia on 2 de September de 2009
Talvez Barack Obama entre para história também por ter inovado com o uso de mecanismos de redes sociais para uma maior aproximação do eleitor. Após ter criado a tendência, muitos políticos por aí (e por aqui) foram na onda, o que poderia ser uma ótima oportunidade para desacastelar a classe.
Poderia, do verbo não está sendo, por conta de algumas questões óbvias que parecem estar passando desapercebidas tanto para os excelentíssimos quanto para seus assessoríssimos.
O bacana da Internet, e de toda a parafernália construída a tomando por base, é uma combinação interessante de dois elementos: acesso fácil às pessoas e interação.
O acesso, salvo a leoníce chacriana de muitos assessores, melhorou com os Twitters e blogs das excelências. Há o que melhorar, deixando mais flúida a comunicação com o político, mas, para uma primeira etapa, acredito que foi uma melhora considerável com o velho paradigma do gabinete (quase sempre inacessível para 99% da população).
Mas, enquanto houve avanços consideráveis na acessibilidade, a interação continua uma grande desgraça. Isto, infelizmente, dá aos reclamões de plantão e ao outro lado da disputa política (seja ela situação ou oposição) munição de sobra para acusar as iniciativas de comunicação de puro modismo vazio. E, de certa forma, fica difícil discordar.
Os blogs e twitters são ferramentas que facilitam muito a conversa e o debate. Mas é preciso primeiro permitir as iniciativas – abrindo blogs a comentários - e depois alimentá-las – respondendo estes mesmos comentários, além de tweets e directs – para que a interação e o debate efetivamente ocorram.
Para não partidarizar o ponto, há semanas atrás tentei entrar em contato com o Senador em que votei para manifestar meu descontentamento quanto à posição que ele havia tomado quanto à tentativa de abertura de investigações no Conselho de Ética em que o Sen. José Sarney era acusado. Fui até o blog do tal Senador, deixei um comentário que nunca fora aprovado, simplesmente por ser uma manifestação legítima (e apartidária, diga-se), mas que expunha o Senador a um descontentamento de um de seus eleitores publicamente.
Aliás, publicamente é a palavra chave aí. Deixar as discussões abertas e vivas é uma forma de não só dar satisfação de sua atuação (princípio básico das formas de comunicação entre políticos e população), mas também de demonstrar interesse e respeito por eventuais opiniões contrárias.
É claro que há questões operacionais, como um “ataque” de opositores de uma forma coordenada e, possivelmente, destrutiva. Mas isto é algo que existe dentro ou fora da Internet. Quem, de vida pública, nunca foi alvo de uma roda, melhor ou pior organizada, de maus comentários? Faz parte do jogo e é bom mesmo que faça. Isto é o debate democrático, tão referenciado e ao mesmo tempo tão utópico.
No fim das contas, é a interação (que conta), senhor político!
Arte e o ego – ou o fim do Oasis
Posted by Alisson Sellaro in Música on 1 de September de 2009
Não é difícil ouvir histórias e mais histórias sobre o ego inflado de alguns artistas. Deve haver, em algum lugar enterrado no meio das nossas entranhas, algo que una muito fortemente a beleza, a expressão e os egos inflamados. É como se produzir algo bonito (ou marcante em algum sentido) de um ou outro modo credenciasse o artista como autoridade.
Não faço julgamento de valor quanto a isto. Cada um sabe – ou deveria saber – da beleza e dos processos de sua produção. Mesmo porque vários dos artistas rotulados aqui e ali de difíceis têm uma produção que não seduz muita gente, ao mesmo tempo em quem carismáticos de carteirinha movem multidões. Se a regra é de que é preciso ser bom para ser um pé no saco, há muita gente equivocada no mundo das artes. Em ambos os sentidos.
Mas o fato, depois de tanta digressão, é que na última sexta-feira, Noel Gallagher de uma pequena e marcante declaração no blog do Oasis: não passaria uma noite mais trabalhando com o irmão, Liam, o dificinho da Estrela (com direito a verbete na Desciclopédia). A New Musical Express noticiou que a causa da saída de Noel teria sido um arranca-rabo com o irmão após um show em Paris.
Depois de oito álbuns e quinze anos de estrada, este pode ser o desfecho de uma banda que incorporou em sua formação a famosa técnica do good cop/bad cop nas figuras dos irmãos Noel e Liam, respectivamente.
I don’t know why you say goodbye, I say hello





