Escambo de livros

2009 28 de August
by Alisson Sellaro

Existe uma certa beleza em fazer coisas simples (e antigas) de um  jeito tecnologicamente revisitado. É bem verdade que às vezes este processo de “modernização” faz com que se perca um pouco do charme em nome de uma maior praticidade. Há quem goste…

Ontem fui apresentado para o Trocando Livros, a forma moderna daquelas feirinhas onde você levava os livros que você não queria mais para trocar com outras pessoas por livros ainda não lidos. E parece que o tal site é igualmente bacana comparado ao troca-troca literário.

O funcionamento é simples: você cria uma conta e inclui os livros que você gostaria de disponibilizar para troca. Outros usuários do site podem pesquisar os livros disponíveis e solicitar os que interessam. O sistema avisa ao dono do livro que há interesse na troca, enviando um e-mail. Se você aceitar a requisição, o sistema te manda o endereço do interessado, você posta o livro diretamente para ele via correios e comunica o envio ao sistema. Isto irá garantir a você um crédito que pode ser usado para solicitar qualquer livro que esteja disponível para troca pelos outros usuários.

Fontes confiáveis informam já terem trocado com sucesso uma dezena de livros em excelente qualidade, sem quaisquer problemas. Quem sabe não vale a pena tentar entrar na feira virtual, aproveitando para reaver sua leitura perdida?

Noch Mal Leben – Fotografia antes e depois da morte

2009 27 de August
by Alisson Sellaro

Todos estes jovens fotógrafos trabalhando mundo afora, que determinam o momento da captura fotográfica, não sabe que eles são agentes da morte. Esta é a forma como nosso tempo assume a morte: o álibe da negação do que está distraidamente “vivo”, do qual o fotógrafo é, de certa maneira, o profissional.

Roland Barthes – A Câmara Clara – Tradução livre

Quando encontrei, no site da Revista Trip, uma matéria sobre o projeto Noch Mal Leben, a primeira lembrança que me veio foi a angústia de ler A Câmara Clara, e ter rotulado junto com uma legião de fotógrafos e wanabes, dentre outras coisas, de um agente amador da morte.

O projeto Noch Mal Leben (algo como “viver de novo”) foi idealizado por Walter Schels, fotógrafo alemão, e sua esposa, a também alemã e jornalista Beate Lakotta. A idéia é fotografar e tomar depoimento de pessoas com enfermidades sem cura em dois momentos: vivas, enquanto internadas em instituições para cuidar destes tipos de caso, e logo depois de morrerem.

Noch Mal Leben - Heiner Schmitz

Noch Mal Leben - Heiner Schmitz

O projeto aborda o que os autores classificam como o último tabu social, pelo menos do ponto de vista cronológico: a morte e o morrer. Por tabela, questões como a força documental da fotografia e do jornalismo também surgem deste contexto onde a única certeza de que todos nós temos é posta em evidência: iremos morrer algum dia.

Aliás, enfrentar esta constatação seriamente faz com que percebamos o quão incrédulos nós mesmos somos nesta certeza. Heiner Schmitz, em seu depoimento, fala (tradução livre):

Ninguém me pergunta como me sinto. Porque todos estão terrivelmente assustados. Me aborreço muito pela forma desesperada que todos evitam o assunto, conversando sobre todo tipo de coisas. Será que eles não entendem? Eu vou morrer! Isto é tudo que eu consigo pensar a respeito quando estou sozinho.

O primeiro retrato de Heiner Schmitz foi tirado em 19 de novembro de 2003. Ele faleceu no dia 14 de dezembro do mesmo ano.

Yet hardly anyone here is devoid of hope: they hope for a few more days; they hope that a dignified death awaits them or that death will not be the end of everything.

Um Que Tenha não está mais entre nós

2009 25 de August
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by Alisson Sellaro

É triste, mas o Um Que Tenha, um dos ícones dos MP3 blogs de boa música brasileira, saiu do ar. A notícia ressoou Internet afora por volta do dia 20 deste mês, e foi confirmada no Twitter pelo Fulanosicrano, pseudônimo do mantenedor do blog.

Um Que Tenha morreu

Um Que Tenha morreu

A reação dos muitos seguidores do Um Que Tenha foi rápida, rapidíssima. Usando das artimanhas do cache do Google, criaram o Um Que Tenha Resiste, que basicamente usa a memória do Google como fonte para os discos que tinham sido disponibilizados pelo Fulanosicrano. Além disso, o próprio Fulanosicrano continua na ativa, indicando discos e mais discos via Twitter, além de ter prometido por lá que o Um Que Tenha vai voltar, e em grande estilo.

A retirada do site do ar também traz para a discussão algumas questões relativas à cansada indústria fonográfica e os direitos autorais. Embora, admito, alguns discos vinculados no Um Que Tenha sejam novos e facilmente encontrados no mercado, grande parte das obras lá publicadas estão fora de catálogo a anos e, mesmo que alguém sinceramente quisesse, não conseguiria mais adquirir o disco no mercado formal.

O argumento, apesar de culturalmente forte, é juridicamente muito fraco. Ainda assim, o debate é válido: até que ponto questões menores, como o interesse comercial de gravadoras ou a aceitação do grande mercado podem influenciar no acesso a manifestações artísticas legítimas, muitas delas fortemente ligadas à identidade do Brasil enquanto nação?

Jurista, que não sou e observador desinteressado e desinteressante, que sou, deixo a discussão para os que têm condições de se aprofudarem mais. Enquanto isso, como pediu o Fulanosicrano, “nada de luto. Eu quero é festa”. Mais ou menos como diria pessoal do Samba da Vela, em A comunidade chora:

Goodreads e as redes sociais diferentes

2009 24 de August
by Alisson Sellaro

De Orkut à Facebook, passando pela profissional LinkedIn e pela “gripe suína” do momento, o Twitter, há redes sociais para todos os gostos, propósitos e tamanhos de exposição.

Há algum pouco tempo atrás, esbarrei com uma rede não tão nova nem tão hypada assim (ainda, pelo menos) chamada Goodreads. Longe de ser um mais do mesmo das redinhas sociais, a Goodreads tem um propósito específico e bem bacana, pelo menos para os bibliófilos de plantão: leitura.

O propósito da Goodreads é listar os livros que você (e seus amigos) leram, estão lendo ou pretendem ler. Este é o ponto de partida para toda a sorte de grupos, confrarias, indicações estatísticas e etc. que geralmente surgem com este tipo de site.

E aí? Que tal criar mais uma continha para reforçar a frase no seu epitáfio de “enfim off-line“?

Resumindo o quadro político do Senado

2009 21 de August
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by Alisson Sellaro

Um grande amigo soltou uma pérola no Twitter. Digno de entrar para história como uma das sínteses mais perfeitas:

Nunca vi momento tão esdrúxulo num Senado desde o Episódio II de Star Wars…

Aliás, para quem não entendeu a sutileza da afirmação, cito mais um trecho, desta vez do Sen. Palpatine (Sarney?!) à Rainha Amidala:

The Republic is not what it once was. The Senate is full of greedy, squabbling delegates. There is no interest in the common good.

Ou hoje, do Senador Mercadante, no Senado brasileiro:

E o custo pessoal, nessa hora, é um custo político que nós estamos pagando por uma aliança. E um custo que não pode ser pago dessa forma, muito menos por um partido como o PT. Nós temos que preservar a aliança, mas temos que fazer uma discussão de fundo sobre os caminhos deste País, de combate ao patrimonialismo, ao nepotismo; de reforma das instituições; de transparência. Isso não pode se perder na governabilidade.

Não precisa mais comentar, né?

Sergey Prokudin-Gorsky

2009 20 de August
by Alisson Sellaro

Ontem foi comemorado o dia da fotografia. Como esperado, várias informações fotográficas estavam em trânsito, mas uma, em especial me chamou muito a atenção.

Quando eu era criança, achava que o mundo “antigo” era sem cor porque todas as fotos dele eram em preto e branco. Talvez por ainda ter guardo em algum lugar esta impressão infantil, as fotos de Sergey Prokudin-Gorsky me impressionaram muito.

The waterfall Kivach. Suna River, 1915 (clique para abrir a foto original)

Prokudin-Gorsky, químico e fotógrafo russo nascido em 1863, desenvolveu uma técnica que, como quase todas as boas idéias, era simples: ele tirava três fotos do que ela gostaria de registrar. Uma utilizando um filme vermelho, outra com filme verde e uma terceira com filme azul. A foto final era o resultado da sobreposição das três fotos.

Ostrecheny. 1909 (Clique para abrir a foto original)

Ostrecheny. 1909 (clique para abrir a foto original)

O projeto mais importante de Prokudin-Gorsky foi realizado de 1909 a 1915. Com o patrocínio e apoio do czar Nicolau II, Prokudin-Gorsky rodou por todo o Império Russo fotografando prédios, campos, pessoas, enfim, o Império. A idéia era criar um acervo visual colorido de como era o Império Russo, em toda sua extensão.

Além da inovação da técnica, o projeto acabou tomando uma dimensão histórica fenomenal. A Rússia estava, então, à beira da Revolução Socialista e da Primeira Guerra.

Mais da metade destes negativos foram recuperados pela Biblioteca do Congresso americano, que os comprou dos herdeiros de Prokudin-Gorsky em 1948.

Leo Tolstoy

Leo Tolstoy por Prokudin-Gorsky (clique para abrir a foto original)

Mais informações sobre Prokudin-Gorsky:

Peasant girls 1909 (clique para abrir a foto original)

Peasant girls 1909 (clique para abrir a foto original)

A arte perdida da leitura

2009 19 de August
by Alisson Sellaro

Reading is an act of contemplation, perhaps the only act in which we allow ourselves to merge with the consciousness of another human being.

Este é um trecho do artigo The Lost Art of Reading, de David Ulin, publicado no Los Angeles Times. Neste artigo, Ulin usa de um argumento bem interessante para defender a sua tese de que estamos perdendo o jeito para leitura: estamos encurralados por um modo de viver que privilegia saber de tudo, on-line, e não deixar fluir um micronésimo de segundo sequer para nada além de ouivr o barulho de tudo.

Numa tradução livre do artigo, num trecho que vem logo antes do bloco que abriu este post: é como se não tivessemos a habilidade de deixar nossa mente repousar o suficiente para habitar a mente de outro, nem permitir que a mente deste outro habite nosso mundo.

A priori, o argumento pode parecer um tanto quanto o famoso mote do Twitter: corrão para as montanhas, numa neura anti-tecnológica vazia. Mas o fato é que Ulin tem muita razão quando fala que estamos migrando nossa atenção do pensar para o reagir. De transformar cada segundo em uma tag e atribuí-la a um porrilhão de fatos (muitos vazios).

Que fique por aqui, meio que como uma oração, a vontade de conseguir parar mais. De se deixar mais levar pelas histórias, boas ou ruins, mas nos seus tempos.

Céu no Prata da Casa – 10 anos

2009 18 de August
by Alisson Sellaro

Algumas poucas fotos do show da Céu, de 13 de agosto, no SESC Pompéia, em comemoração aos 10 anos do projeto Prata da Casa.

Outras fotos serão publicadas no Flickr.

Músicas novas, dicas da BBC Radio 1

2009 17 de August
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by Alisson Sellaro

A BBC tem várias rádios lá pelas bandas do Reino Unido. Uma delas, a BBC Radio 1, tem sua programação 100% voltada para música.

Quem curte o cenário musical britânico talvez vá gostar de um podcast interessante chamado Radio 1 Introducing. Este podcast é o programa semanal de Huw Stephens, e traz algumas das novidades musicais de lá que vão do hip-hop ao indie rock. Muita coisa boa que ainda vai trilhar seu caminho pelas pistas até chegar, quem sabe, por estas bandas. Vale a pena conferir.

Mais informações sobre o podcast. O feed para assinar o podcast, aqui.

Brasil, Chavez e a América do Sul

2009 14 de August
by Alisson Sellaro

Pois é, gente… Estava demorando, mas a repercussão internacional do “em cima do murismo” do governo brasileiro começou a ecoar lá fora.

A revista britânica The Economist, na edição que circulará a partir de amanhã, 15 de agosto, traz um artigo sobre o posicionamento esquizofrênco da política externa brasileira.

O artigo ressalta todo o sucesso do governo Lula, desde aspectos de assistência social ao reforço da democracia, com um perfil “sábio” em ter negado qualquer evolução quanto à questão do terceiro mandato presidencial. Além disso, o artigo também reforça a importância brasileira dentro do contexto dos BRIC, jogando por terra a velha teoria de que seriamos o país mais fraco do grupo.

Tudo seria flores, não fossem algumas observações pertinentes quanto ao que diz respeito ao receio brasileiro de assumir posições que reforcem seus valores democráticos e de estímulo a uma economia livre, mas com forte responsabilidade social.  O bom trânsito que Lula faz entre Obama e Fidel Castro deveria ser um trunfo para, com o jeitinho diplomático brasileiro (ao contrário da truculência sugerida como super-trunfo pela Folha há dias atrás), liderar a “ordem na casa” da América Latina.

Justiça seja feita, nos calamos em relação a coisas importantes como a nova lei de imprensa na Venezuela, o xilique chavista quanto às bases americanas em Cuba e a questão das armas fornecidas às FARC. Isto sem mencionar a questão da estradição italiana ou das eleições no Irã.

O artigo fecha com um tom moderado que deve servir de base para discussões mais profundas no Itamaraty. Se o Senado não roubar tanto a cena:

Nobody should expect Brazil to act as America’s sheriff. But it is in its own interest to prevent a new cold war in the region. The way to do so is not to equivocate between democrats and autocrats, as Lula seems to think. It is to shame Mr Chávez by drawing a clear, public line in favour of democracy—the system that allowed a poor lathe-operator to come to power and change Brazil. Why should other countries deserve less?