Archive for category Política
Um ano nada sabático
Posted by Alisson Sellaro in Leitura, Política on 5 de January de 2012
Faz quase um ano que não dou as caras por aqui. Acredito que isto signifique algo importante no que diz respeito às minhas prioridades, assim como meu retorno, logo agora, também tenha seu significado.
No rol das coisas a escrever, algumas impressões sobre dois livros que falam de momentos da história recente da América Latina.
Prometo, em breve, falar sobre A Sombra do Ditador, de Heraldo Muñoz, e Privataria Tucana, do Amaury Riveiro Jr.
Ideias diferentes
Posted by Alisson Sellaro in Política on 8 de October de 2010
Há algum tempo atrás, numa conversinha de restaurante, passei por um momento extremamente chato, que ainda repercute, meses depois, na minha cabeça. O assunto era o quão complexo seria votar bem nas eleições deste ano para presidente, tamanho os problemas de ambos os principais candidatos.
Na conversa estavam apenas três pessoas: um casal, amigos de longa data, e eu. Os três jovens, ainda com alguns ideais não lapidados na cabeça, mas já com alguma carne amaciada por uma ou outra porrada sofrida por aí. Ele, médico, com uma criatividade questionadora à flor da pele. Ela, uma menina brilhante em meados de seu doutorado.
O incômodo da situação surgiu quando manifestei uma opinião de preocupação quanto a forma de governo do PSDB (questões sociais e de educação) ao mesmo tempo em que o PT vinha em uma frente positiva em vários aspectos, mas perigosa em relação à dívida pública e ao aparelhamento de modo ineficiente do Estado. Grande erro. Todas as paixões foram vomitadas na mesa do jantar…
Para encurtar uma história longa, fui, não tão gentilmente, desqualificado enquanto interlocutor. O que acabou por me jogar em um modo Roberto Jefferson de ser, quando acabei acusando a jovem amiga de arrogante e prepotente. Coisas de paixões políticas e egos feridos.
Passado um pouco de tempo (não o suficiente para cicatrizar todas as feridas, confesso), aguardo o segundo turno com a mesma angústia do tal jantar frustrado. Dilma e Serra se engalfinham no que deve entrar para história como a campanha mais baixa e vazia de proposta de toda a história do Brasil até agora.
Tem de tudo um pouco: repercussões incessantes da mídia em relação a aborto (como se, subitamente, fossemos ungidos pelo Vaticano a escolher o próximo papa, e não um presidente de um Estado dito laico), vídeos e tags no Twitter, demissão de colunista em jornais que ecoam aos quatro ventos estarem sob censura há não sei quantos dias, jornal que também reclama do viés autoritário e contra a liberdade de imprensa do governo, ao mesmo tempo em que tira site de paródia do ar argumentando uso indevido da marca…
No meio desta turbulência toda, dentro e fora da minha cabeça, eis que o Observatório da Imprensa repercute hoje um artigo do Eugênio Bucci com título de O Valor da Pluralidade. Artigo, aliás, publicado no tal jornal que demite colunista que ousa ter opinião diferente da linha editorial. Destaco os seguintes trechos:
Uma opinião que precisa silenciar outra para se afirmar corrói a si mesma. Já temos história suficiente para saber que o vício da intolerância não consegue apagar o intolerado – apenas desacredita o intolerante. É ele, não sua vítima, que perde autoridade.
De mais a mais, duas coisas extremamente positivas saem deste imbróglio. A primeira, como diria um outro amigo (coincidentemente jornalista): as eleições passam. As amizades deveriam ficar. A outra, que virou quase um amuleto, é uma piadinha interna nova: “não tenho leitura suficiente para isto” tudo.
É a interação, sr. político!
Posted by Alisson Sellaro in Política, Tecnologia on 2 de September de 2009
Talvez Barack Obama entre para história também por ter inovado com o uso de mecanismos de redes sociais para uma maior aproximação do eleitor. Após ter criado a tendência, muitos políticos por aí (e por aqui) foram na onda, o que poderia ser uma ótima oportunidade para desacastelar a classe.
Poderia, do verbo não está sendo, por conta de algumas questões óbvias que parecem estar passando desapercebidas tanto para os excelentíssimos quanto para seus assessoríssimos.
O bacana da Internet, e de toda a parafernália construída a tomando por base, é uma combinação interessante de dois elementos: acesso fácil às pessoas e interação.
O acesso, salvo a leoníce chacriana de muitos assessores, melhorou com os Twitters e blogs das excelências. Há o que melhorar, deixando mais flúida a comunicação com o político, mas, para uma primeira etapa, acredito que foi uma melhora considerável com o velho paradigma do gabinete (quase sempre inacessível para 99% da população).
Mas, enquanto houve avanços consideráveis na acessibilidade, a interação continua uma grande desgraça. Isto, infelizmente, dá aos reclamões de plantão e ao outro lado da disputa política (seja ela situação ou oposição) munição de sobra para acusar as iniciativas de comunicação de puro modismo vazio. E, de certa forma, fica difícil discordar.
Os blogs e twitters são ferramentas que facilitam muito a conversa e o debate. Mas é preciso primeiro permitir as iniciativas – abrindo blogs a comentários - e depois alimentá-las – respondendo estes mesmos comentários, além de tweets e directs – para que a interação e o debate efetivamente ocorram.
Para não partidarizar o ponto, há semanas atrás tentei entrar em contato com o Senador em que votei para manifestar meu descontentamento quanto à posição que ele havia tomado quanto à tentativa de abertura de investigações no Conselho de Ética em que o Sen. José Sarney era acusado. Fui até o blog do tal Senador, deixei um comentário que nunca fora aprovado, simplesmente por ser uma manifestação legítima (e apartidária, diga-se), mas que expunha o Senador a um descontentamento de um de seus eleitores publicamente.
Aliás, publicamente é a palavra chave aí. Deixar as discussões abertas e vivas é uma forma de não só dar satisfação de sua atuação (princípio básico das formas de comunicação entre políticos e população), mas também de demonstrar interesse e respeito por eventuais opiniões contrárias.
É claro que há questões operacionais, como um “ataque” de opositores de uma forma coordenada e, possivelmente, destrutiva. Mas isto é algo que existe dentro ou fora da Internet. Quem, de vida pública, nunca foi alvo de uma roda, melhor ou pior organizada, de maus comentários? Faz parte do jogo e é bom mesmo que faça. Isto é o debate democrático, tão referenciado e ao mesmo tempo tão utópico.
No fim das contas, é a interação (que conta), senhor político!
Resumindo o quadro político do Senado
Posted by Alisson Sellaro in Política on 21 de August de 2009
Um grande amigo soltou uma pérola no Twitter. Digno de entrar para história como uma das sínteses mais perfeitas:
Nunca vi momento tão esdrúxulo num Senado desde o Episódio II de Star Wars…
Aliás, para quem não entendeu a sutileza da afirmação, cito mais um trecho, desta vez do Sen. Palpatine (Sarney?!) à Rainha Amidala:
The Republic is not what it once was. The Senate is full of greedy, squabbling delegates. There is no interest in the common good.
Ou hoje, do Senador Mercadante, no Senado brasileiro:
E o custo pessoal, nessa hora, é um custo político que nós estamos pagando por uma aliança. E um custo que não pode ser pago dessa forma, muito menos por um partido como o PT. Nós temos que preservar a aliança, mas temos que fazer uma discussão de fundo sobre os caminhos deste País, de combate ao patrimonialismo, ao nepotismo; de reforma das instituições; de transparência. Isso não pode se perder na governabilidade.
Não precisa mais comentar, né?
Brasil, Chavez e a América do Sul
Posted by Alisson Sellaro in Política on 14 de August de 2009
Pois é, gente… Estava demorando, mas a repercussão internacional do “em cima do murismo” do governo brasileiro começou a ecoar lá fora.
A revista britânica The Economist, na edição que circulará a partir de amanhã, 15 de agosto, traz um artigo sobre o posicionamento esquizofrênco da política externa brasileira.
O artigo ressalta todo o sucesso do governo Lula, desde aspectos de assistência social ao reforço da democracia, com um perfil “sábio” em ter negado qualquer evolução quanto à questão do terceiro mandato presidencial. Além disso, o artigo também reforça a importância brasileira dentro do contexto dos BRIC, jogando por terra a velha teoria de que seriamos o país mais fraco do grupo.
Tudo seria flores, não fossem algumas observações pertinentes quanto ao que diz respeito ao receio brasileiro de assumir posições que reforcem seus valores democráticos e de estímulo a uma economia livre, mas com forte responsabilidade social. O bom trânsito que Lula faz entre Obama e Fidel Castro deveria ser um trunfo para, com o jeitinho diplomático brasileiro (ao contrário da truculência sugerida como super-trunfo pela Folha há dias atrás), liderar a “ordem na casa” da América Latina.
Justiça seja feita, nos calamos em relação a coisas importantes como a nova lei de imprensa na Venezuela, o xilique chavista quanto às bases americanas em Cuba e a questão das armas fornecidas às FARC. Isto sem mencionar a questão da estradição italiana ou das eleições no Irã.
O artigo fecha com um tom moderado que deve servir de base para discussões mais profundas no Itamaraty. Se o Senado não roubar tanto a cena:
Nobody should expect Brazil to act as America’s sheriff. But it is in its own interest to prevent a new cold war in the region. The way to do so is not to equivocate between democrats and autocrats, as Lula seems to think. It is to shame Mr Chávez by drawing a clear, public line in favour of democracy—the system that allowed a poor lathe-operator to come to power and change Brazil. Why should other countries deserve less?
Movimentos estranhos
Posted by Alisson Sellaro in Política on 10 de August de 2009
Pensei muito se incluiria ou não por aqui uma categoria sobre política. Sei que o assunto é importante e bem fácil de conter várias coisas observáveis. Mas sei também que o negócio é chato pra caramba porque monotônico nos temas: corrupção-ineficiência-ética.
Depois de pensar um pouco sobre a questão, decidi pedir desculpas aos meus dois leitores (oi mãe!) e criar a bendita categoria. Vou tentar não observar publicamente muitas coisas nela, mas não posso prometer, mesmo porque as coisas da política pulam na sua frente com uma agilidade de Cirque du Soleil e, pelo menos pra mim, é bem difícil não observar.
Um exemplo: esta maré de baixaria que tem subido no Senado Federal, com discussões de “grande eloquencia” de Senadores como Tasso Jereissati e Renan Calheiros, com apoio do ilustríssimo Collor de Mello e Sanrney. Se a ideia era jogar uma pá de cal na opinião pública em relação ao Senado, parece que as excelências estão conseguindo e muito bem. Só os capítulos desta novela mexicana de mal gosto já seriam matéria-prima mais que suficiente para algumas caixas de cerveja e umas duas mil laudas de escritos.
Se levarmos em consideração também alguns movimentos esquisitos, que vêm junto da maré, feito alienígenas em medidas provisórias, a coisa fica ainda mais interessante de ser observada. Um bom exemplo que consigo citar é o editorial vinculado ontem, 9 de agosto, na Folha de São Paulo. Só o título do editorial já é de dar medo a qualquer ser humano que não seja do Tradição, Família e Propriedade: “Defesa nacional”.
Nesta bela peça editorial, a Folha de São Paulo dá sua opinião a respeito da necessidade de o Brasil equipar melhor suas Forças Armanadas para que possa assumir sua posição “cada vez mais relevante no cenário internacional”.
O texto é sofrível no que se refere à sustentação. Sua motivação é pra lá de questionável, e os argumentos que deveriam sustentá-la são, na melhor da hipóteses, contraditórios. Algo na linha: “não me enxe, senão te quebro as fuças”:
O país, que ganha projeção e candidata-se a assumir mais responsabilidades, precisa reunir condições de enfrentar os desafios inerentes a este papel, num século que já nasceu sob o signo de novos conflitos e riscos geopolíticos. A palavra chave a nortear as ações neste setor é dissuasão.
O editorial segue mencionando a dificuldade de estimar o tamanho dos orçamentos de outras nações similares ao Brasil (no contexto geopolítico?), expondo dados que apontam que o Brasil está em décimo segundo lugar, e ao mesmo tempo (novamente em contradição) afirmando:
Reconhecer a necessidade de reforçar o poder defensivo do país não significa um convite a aventuras. O Brasil não precisa e não deve estimular corridas armamentistas regionais ou despertar inquietações quanto ao uso de sua energia nuclear.
Com o Senado Federal tendo sua necessidade questionada pelos sucessivos escândalos, editoriais desta natureza: belicosa, armamentista e que evocam a defesa (seja da honra, da tradição, da propriedade ou da “soberania”), me preocupam e muito. Aliás, alguém já leu uma matéria dos jornalões a respeito da importância do Senado e da Câmara dos Deputados nos processos democráticos?
Não sei vocês, mas eu me preocupo com algumas argumentações vazias da grande imprensa e nos efeitos que esta repercussão pode ter numa sociedade que ainda não teve a ferida da ditadura cicratizada:
O Estado brasileiro já tem uma sólida, louvável e reconhecida tradição diplomática voltada para o entendimento e a solução pacífica de conflitos. É justamente para preservar este patrimônio que a defesa nacional, submetida aos devidos controles políticos e constitucionais, adquire papel mais rlevante.
O grifo no aposto acima é meu, OK?
Que a Folha nos explique, então, onde estão os devidos controles políticos e constitucionais nos infindáveis escândalos políticos que vêm assolando o Brasil desde… sempre. Aliás, é fácil subverter os controle políticos e constitucionais com qualquer joguete de palavras. Na mesma (rica) edição da Folha, agora não mais no editorial, mas em outro texto, Carlos Heitor Cony, acadêmico da ABL assim como o Senador Sanrney, fecha seu texto dizendo o seguinte:
A Comissão de Ética e mais tarde o plenário do Senado têm todos os elementos para punir culpados ou culpado. Atender o pedido de uma neta não é crime previsto no Código Penal de nenhum país regulado por leis e não por ressentimentos.
Como diria Regina Duarte: eu tenho muito mêdo.
Texto completo do editorial (apenas para assinantes da Folha de S. Paulo ou do UOL).
