Archive for category Leitura
Zum – Fotografia e o Instituto Moreira Salles
Posted by Alisson Sellaro in Fotografia, Leitura on 13 de January de 2012
Demorou, mas finalmente, entre uma reunião e outra viagem, consegui por as mãos e os olhos na Zum, a revista de fotografia do Instituto Moreira Salles.
A revista, semestral, foi lançada em outubro de 2011 e se propõe, como diz o seu editorial de estréia, a trazer “ensaios visuais inéditos ou oouco conhecidos, acompanhados de artigos, entrevistas e textos fundamentais da hisrtória da fotografia.”
A revista tem a qualidade editorial já típica das publicações do IMS, como a revista Serrote ou os Cadernos de Literatura e Cadernos de Fotografia. À frente da edição da Zum, está Thyago Nogueira, editor da Companhia das Letras e autor do livro Por trás daquela foto: contos e ensaios sobre fotografia (Companhia das Letras, 2011). Nas palavras do Thyago, em uma entrevista concedida ao Olhavê:
Na reunião de pauta, gostamos de dizer que a ZUM é uma revista contemporânea sobre a fotografia. Isto é, uma revista que olha para a fotografia, qualquer que seja ela, de qualquer época, a partir de uma perspectiva atual, moderna, contemporânea, que abole as fronteiras, a segmentação, e que combina várias áreas do conhecimento na discussão. Também é uma grande preocupação da revista encomendar textos saborosos para acompanhar os ensaios fotográficos. Em certa medida, é uma revista de cultura visual.
Há muito de interessante o que ver na Zum, mas estranhamente o que mais me fascinou foi algo de ler: o ensaio O instante decisivo, de Henri Cartier-Bresson. Um texto simples e atualíssimo, apesar de seus já sessenta anos, de um fotógrafo que jamais será esquecido.
Recomendo a todos que gostam de fotografia e artes visuais. Espero ansioso já pelo número 2.
Mais informações, no blog do IMS.
Um ano nada sabático
Posted by Alisson Sellaro in Leitura, Política on 5 de January de 2012
Faz quase um ano que não dou as caras por aqui. Acredito que isto signifique algo importante no que diz respeito às minhas prioridades, assim como meu retorno, logo agora, também tenha seu significado.
No rol das coisas a escrever, algumas impressões sobre dois livros que falam de momentos da história recente da América Latina.
Prometo, em breve, falar sobre A Sombra do Ditador, de Heraldo Muñoz, e Privataria Tucana, do Amaury Riveiro Jr.
A Folha e a tatuagem da Falha
Posted by Alisson Sellaro in Leitura on 4 de January de 2011
A edição de 4 de janeiro de 2011 da Folha de São Paulo trouxe, em sua primeira página, o seguinte destaque: “Mulher de Temer tatuou nome do marido na nuca”. A nota traz duas fotos de Marcela Temer. Uma de costas, e outra com o detalhe do pescoço, mostrando uma tatuagem.
Sem querer pagar de politizado, ou muito menos de chato de plantão, decidi cancelar minha assinatura da Folha e escrever o texto abaixo para a Ombudsman do jornal, Suzana Singer.
Acho que vale o esforço de não se calar quando bobagens desta natureza são vendidas para nós como um retrato fiel da sociedade brasileira. Somos melhores do que isto, gente.
Suzana
Domingo passado o seu espaço no jornal foi utilizado para relatar as ações no intuito de ouvir os leitores/assinantes que não costumam procurar o Ombudsman. Até antes das eleições presidenciais recentes, eu me enquadrava nesta categoria. Nas eleições, entretanto, recorri a você sobre a atuação da Folha que, se dizendo isenta, tomava todos e mais alguns partidos. Você, aliás, respondeu prontamente, dizendo estar abordando a cobertura das eleições na crítica interna e que escreveria sobre o assunto no domingo seguinte. Justiça seja feita, houve algumas adequações na abordagem da cobertura eleitoral.
Pois bem, recorro novamente a você, enquanto ouvidora da Folha, para perguntar o que está causando tamanha nova degradação da qualidade editorial deste jornal. Explico: na edição de hoje, fiquei completamente estarrecido com o fato de que há espaço na primeira página de um dos (ou talvez “o”) jornais mais importantes do país para o fato da Sra. Marcela Temer ter tatuado no pescoço o nome do marido.
Temos um novo presidente, novos governadores e parlamentares. Temos uma importante questão da agenda de relações internacionais e direito constitucional com o caso Cesare Battisti. Temos novos mandatos no executivo estadual e no parlamento americano. Na seara econômica, temos o fechamento dos indicadores de inflação no Brasil e os alinhamentos de transição nos cargos executivos do Banco Central, a inclusão da Estônia na Comunidade Européia. Temos todo o planejamento para os jogos olímpicos e a copa do mundo, que necessitaram de monstruosas somas de dinheiro público. Enfim, assuntos são tantos que não consigo imaginar algo menos relevante no atual contexto dentro e fora do país do que a tatuagem da Sra. Temer (que, aliás, continua em outra nota na página A7, no caderno Poder, que trata de… política!)
Na minha sincera opinião, é sim função da comunicação social retratar a sociedade. Ao mesmo tempo, entretanto, também é função, principalmente do jornalismo, questionar situações e costumes anacrônicos e descabidos. O que pretende a Folha, então, ao dar espaço valioso de sua primeira página à tatuagem da vice-primeira dama? Será que este tipo de postura editorial não dá sobrevida a costumes tão repugnantes como o machismo que ronda a sociedade brasileira há séculos? Será que não seria mais adequado este tipo de matéria a revistas “especializadas” em badalações, celebridades e fofocas, ao invés de ocupar espaço da primeira página de jornais de importância nacional? Será que este tipo de “matéria” não fomenta, indireta e sorrateiramente, uma mensagem de que a “ninfeta” foi “fisgada” por (ou fisgou) o “velhote importante e endinheirado”?
A julgar pelos sucessivos equívocos editoriais da Folha, não me surpreenderia encontrar como manchete algo do tipo: “Denúncia: Marcela Temer admite ter mantido relações sexuais com o vice-presidente” com direito ao característico grifo à lá Folha e o lide “Marcela Temer, 23 anos, atual esposa do vice-presidente Michel Temer, 70 anos, admite ter mantido relações sexuais pré-nupciais, apesar da estratosférica diferença de idade entre eles.” e segue “Gerente de motel da região de Campinas afirma ter recebido em seu estabelecimento pelo menos 10 visitas do casal entre os meses de janeiro e março de 2007″.
É a ideia que a Folha, que travou recentes litígios por conta de sua marca, quer passar para seus leitores? A continuar nesta linha, “Falha” de S. Paulo vai deixar de ser um antigo litígio para se tornar, de fato, uma marca registrada. Oficialmente ou não.
Um abraço e parabéns pelo excelente trabalho à frente da ouvidoria.
Do, agora, ex-assinante.
Chutar cachorro atropelado
Posted by Alisson Sellaro in Leitura on 22 de June de 2010
Da crônica do Carlos Heitor Cony, hoje na Folha:
Aprendi com os meus maiores que não se deve chutar cachorro atropelado. E, mesmo que não tivessem ensinado regra tão elementar, acredito que por conta própria eu evitaria chutar não apenas os cachorros atropelados mas os caídos e vencídos na vida, pela simples e bastante razão de ser eu um deles.
A crônica é sobre futebol. Mas a aplicação é extensa.
Escrever para matar os maus espíritos
Posted by Alisson Sellaro in Leitura on 21 de June de 2010
Semana passada faleceu o Saramago. Um escritor tão mítico que nos faz morrer de rir com suas constatações que beiram o ridículo de tão óbvia. E, justamente por isso, geniais.
Quisera eu ter a paciência e a perseverança dos gênios, como Saramago. Deve ser uma boa sensação partir com a missão cumprida.
Dapieve, literatura pop, ruivas e o Rio de Janeiro
Posted by Alisson Sellaro in Leitura, Música on 27 de November de 2009
De volta à tela do computador, Bernardinho tentou entender o que acabara de se passar. Era quinta-feira. Ele entregara o CD-R com as músicas do R.E.M. na segunda-feira de manhã. Cautelosamente, evitara travar novo contato com Adelaide, esperando que ela fizesse algum movimento. Nada. Sessenta horas inteiras sem nem um oi. Chegou a pensar que a carona houvesse esgotado tudo o que tinham para viver na vida um do outro. “dramático paca pô” E, como tantas outras mulheres na vida do homem médio, a garota do Leblon estivesse fadada a não ser fodida, fadada a desbotar na memória da bronha. Sem retorno, o tesão arrefece, mais cedo ou mais tarde. (Bem, mesmo com retorno também.) O pensamento de que tudo não passara de coisa alguma chegava a reconfortar Bernardinho. “ao menos o impulso de comê-la está mostrando que os sistemas estão funcionando”, pensara, na terça-feira à tarde ou na quarta-feira à noite. Então, sem mais nem menos, ela entra na sua sala e, diante de seus colegas de trabalho, demonstra uma intimidade que eles sequer imaginavam. Pior: uma intimidade passada que insinuava uma intimidade futura ainda meior. Melhor: uma intimidade passada que prometia uma intimidade futura ainda maior.
Este é um dos parágrafos do romance de estréia de Arthur Dapieve, “De cada amor tu herdarás só o cinismo”. O livro, de 2004, caiu nas minhas mãos por acaso, ao bisbilhotar uma pilha de livros desorganizados no apartamento de um grande amigo que sempre me hospeda quando tenho a sorte de ir ao Rio de Janeiro.
Apesar do título, trecho de O mundo é um moinho, uma das canções mais famosas de Cartola, o livro começa no fim do show do R.E.M. no Rock In Rio 3, dia 14 de janeiro de 2001, no fim de It’s the end of the world as we know it (and I feel fine) – que, aliás, realmente foi a última música do show real no dia 14/1/2001. O conflíto novo-fenômeno-revival-da-música-brasileira vs. rock-é-a-única-coisa-digna-no-mundo (eu ainda acho que os dois convivem lindamente) é mais um dos conflítos que temperam o relacionamento de Bernardinho, publicitário quarentão, e Adelaide, ninfetinha do Leblon, sua estagiária.
O livro é delicioso do início ao fim e vale cada centavo por ser uma visão bem humorada sobre relações (em diversos níveis e formas), música brasileira, música pop, auto-mazelice e as eternas buscas sem propósito que nós, gente, travamos dia a dia.
Dapieve, jornalista e colunista do Caderno 2 do O Globo desde que o mundo é mundo (calcula-se que isto seja desde 1993), tem dois livros sobre rock brasileiro e tem a veia pop nos temas e nas formas de escrever.
Divirtam-se.
Serrote número 3
Posted by Alisson Sellaro in Leitura on 9 de November de 2009
Boas notícias para marcar o retorno: a edição número 3 da revista de ensaios do Instituto Moreira Salles, Serrote, foi publicada.
A foto (acima) de capa, de Thomaz Farkas, foi tirada em São Paulo nas filmagens do documentário Subterrâneos do futebol, produzido em 1964 por Vladmir Herzog e dirigido por Maurice Capovilla. A foto traz uma pista para um dos ensaios da edição, que me despertou a curiosidade logo de cara: Roland Barthes em um texto de 1961 entitulado O que é esporte.
No site do Instituto Moreira Salles, há mais informações sobre o conteúdo do número 3 da revista. Não deixem de ver.
Se você quiser mais informações sobre a Serrote, algo já foi falado por aqui antes.
Escambo de livros
Posted by Alisson Sellaro in Leitura on 28 de August de 2009
Existe uma certa beleza em fazer coisas simples (e antigas) de um jeito tecnologicamente revisitado. É bem verdade que às vezes este processo de “modernização” faz com que se perca um pouco do charme em nome de uma maior praticidade. Há quem goste…
Ontem fui apresentado para o Trocando Livros, a forma moderna daquelas feirinhas onde você levava os livros que você não queria mais para trocar com outras pessoas por livros ainda não lidos. E parece que o tal site é igualmente bacana comparado ao troca-troca literário.
O funcionamento é simples: você cria uma conta e inclui os livros que você gostaria de disponibilizar para troca. Outros usuários do site podem pesquisar os livros disponíveis e solicitar os que interessam. O sistema avisa ao dono do livro que há interesse na troca, enviando um e-mail. Se você aceitar a requisição, o sistema te manda o endereço do interessado, você posta o livro diretamente para ele via correios e comunica o envio ao sistema. Isto irá garantir a você um crédito que pode ser usado para solicitar qualquer livro que esteja disponível para troca pelos outros usuários.
Fontes confiáveis informam já terem trocado com sucesso uma dezena de livros em excelente qualidade, sem quaisquer problemas. Quem sabe não vale a pena tentar entrar na feira virtual, aproveitando para reaver sua leitura perdida?
Goodreads e as redes sociais diferentes
Posted by Alisson Sellaro in Leitura, Tecnologia on 24 de August de 2009
De Orkut à Facebook, passando pela profissional LinkedIn e pela “gripe suína” do momento, o Twitter, há redes sociais para todos os gostos, propósitos e tamanhos de exposição.
Há algum pouco tempo atrás, esbarrei com uma rede não tão nova nem tão hypada assim (ainda, pelo menos) chamada Goodreads. Longe de ser um mais do mesmo das redinhas sociais, a Goodreads tem um propósito específico e bem bacana, pelo menos para os bibliófilos de plantão: leitura.
O propósito da Goodreads é listar os livros que você (e seus amigos) leram, estão lendo ou pretendem ler. Este é o ponto de partida para toda a sorte de grupos, confrarias, indicações estatísticas e etc. que geralmente surgem com este tipo de site.
E aí? Que tal criar mais uma continha para reforçar a frase no seu epitáfio de “enfim off-line“?
A arte perdida da leitura
Posted by Alisson Sellaro in Leitura on 19 de August de 2009
Reading is an act of contemplation, perhaps the only act in which we allow ourselves to merge with the consciousness of another human being.
Este é um trecho do artigo The Lost Art of Reading, de David Ulin, publicado no Los Angeles Times. Neste artigo, Ulin usa de um argumento bem interessante para defender a sua tese de que estamos perdendo o jeito para leitura: estamos encurralados por um modo de viver que privilegia saber de tudo, on-line, e não deixar fluir um micronésimo de segundo sequer para nada além de ouivr o barulho de tudo.
Numa tradução livre do artigo, num trecho que vem logo antes do bloco que abriu este post: é como se não tivessemos a habilidade de deixar nossa mente repousar o suficiente para habitar a mente de outro, nem permitir que a mente deste outro habite nosso mundo.
A priori, o argumento pode parecer um tanto quanto o famoso mote do Twitter: corrão para as montanhas, numa neura anti-tecnológica vazia. Mas o fato é que Ulin tem muita razão quando fala que estamos migrando nossa atenção do pensar para o reagir. De transformar cada segundo em uma tag e atribuí-la a um porrilhão de fatos (muitos vazios).
Que fique por aqui, meio que como uma oração, a vontade de conseguir parar mais. De se deixar mais levar pelas histórias, boas ou ruins, mas nos seus tempos.

