Pensei muito se incluiria ou não por aqui uma categoria sobre política. Sei que o assunto é importante e bem fácil de conter várias coisas observáveis. Mas sei também que o negócio é chato pra caramba porque monotônico nos temas: corrupção-ineficiência-ética.
Depois de pensar um pouco sobre a questão, decidi pedir desculpas aos meus dois leitores (oi mãe!) e criar a bendita categoria. Vou tentar não observar publicamente muitas coisas nela, mas não posso prometer, mesmo porque as coisas da política pulam na sua frente com uma agilidade de Cirque du Soleil e, pelo menos pra mim, é bem difícil não observar.
Um exemplo: esta maré de baixaria que tem subido no Senado Federal, com discussões de “grande eloquencia” de Senadores como Tasso Jereissati e Renan Calheiros, com apoio do ilustríssimo Collor de Mello e Sanrney. Se a ideia era jogar uma pá de cal na opinião pública em relação ao Senado, parece que as excelências estão conseguindo e muito bem. Só os capítulos desta novela mexicana de mal gosto já seriam matéria-prima mais que suficiente para algumas caixas de cerveja e umas duas mil laudas de escritos.
Se levarmos em consideração também alguns movimentos esquisitos, que vêm junto da maré, feito alienígenas em medidas provisórias, a coisa fica ainda mais interessante de ser observada. Um bom exemplo que consigo citar é o editorial vinculado ontem, 9 de agosto, na Folha de São Paulo. Só o título do editorial já é de dar medo a qualquer ser humano que não seja do Tradição, Família e Propriedade: “Defesa nacional”.
Nesta bela peça editorial, a Folha de São Paulo dá sua opinião a respeito da necessidade de o Brasil equipar melhor suas Forças Armanadas para que possa assumir sua posição “cada vez mais relevante no cenário internacional”.
O texto é sofrível no que se refere à sustentação. Sua motivação é pra lá de questionável, e os argumentos que deveriam sustentá-la são, na melhor da hipóteses, contraditórios. Algo na linha: “não me enxe, senão te quebro as fuças”:
O país, que ganha projeção e candidata-se a assumir mais responsabilidades, precisa reunir condições de enfrentar os desafios inerentes a este papel, num século que já nasceu sob o signo de novos conflitos e riscos geopolíticos. A palavra chave a nortear as ações neste setor é dissuasão.
O editorial segue mencionando a dificuldade de estimar o tamanho dos orçamentos de outras nações similares ao Brasil (no contexto geopolítico?), expondo dados que apontam que o Brasil está em décimo segundo lugar, e ao mesmo tempo (novamente em contradição) afirmando:
Reconhecer a necessidade de reforçar o poder defensivo do país não significa um convite a aventuras. O Brasil não precisa e não deve estimular corridas armamentistas regionais ou despertar inquietações quanto ao uso de sua energia nuclear.
Com o Senado Federal tendo sua necessidade questionada pelos sucessivos escândalos, editoriais desta natureza: belicosa, armamentista e que evocam a defesa (seja da honra, da tradição, da propriedade ou da “soberania”), me preocupam e muito. Aliás, alguém já leu uma matéria dos jornalões a respeito da importância do Senado e da Câmara dos Deputados nos processos democráticos?
Não sei vocês, mas eu me preocupo com algumas argumentações vazias da grande imprensa e nos efeitos que esta repercussão pode ter numa sociedade que ainda não teve a ferida da ditadura cicratizada:
O Estado brasileiro já tem uma sólida, louvável e reconhecida tradição diplomática voltada para o entendimento e a solução pacífica de conflitos. É justamente para preservar este patrimônio que a defesa nacional, submetida aos devidos controles políticos e constitucionais, adquire papel mais rlevante.
O grifo no aposto acima é meu, OK?
Que a Folha nos explique, então, onde estão os devidos controles políticos e constitucionais nos infindáveis escândalos políticos que vêm assolando o Brasil desde… sempre. Aliás, é fácil subverter os controle políticos e constitucionais com qualquer joguete de palavras. Na mesma (rica) edição da Folha, agora não mais no editorial, mas em outro texto, Carlos Heitor Cony, acadêmico da ABL assim como o Senador Sanrney, fecha seu texto dizendo o seguinte:
A Comissão de Ética e mais tarde o plenário do Senado têm todos os elementos para punir culpados ou culpado. Atender o pedido de uma neta não é crime previsto no Código Penal de nenhum país regulado por leis e não por ressentimentos.
Como diria Regina Duarte: eu tenho muito mêdo.
Texto completo do editorial (apenas para assinantes da Folha de S. Paulo ou do UOL).

lembro que a globo quis o collor no poder, mas quando quis também o tirou: marcava as passeatas em locais estratégicos, mostrava toda podridão… e sinto que a globo anda bem passiva com o que acontece hoje…
isso me enoja muito!
Eu sou do TFP: Tesão, Fudelança e Putaria
Mas em princípio, você acha “Defesa nacional” algo ruim? E se aparece alguém (qualquer um: governo coreano, americano, algum empresário russo, etc), ancora em alguma praia brasileira e monta um mega-lixão, o que deve ser feito? Ou se roubam uma plataforma da petrobrás? Ou traficantes se escondendo na amazonia? ou ocupação de território da amazonia? defesa nacional tem um sentido, e a nossa é muito meia boca.
Opa. hey
Não acho defesa nacional ruim não. É necessário que exista e que as Forças Armadas tenham condições de prover esta defesa da melhor forma. Inclusive, os pontos que você citou são importantíssimos de serem defendidos.
O meu ponto, especificamente é o seguinte: o fato de o Brasil estar despontando como destaque econômico não é motivo suficiente para isto. Os motivos são outros. Talvez os que você citou. Que, convenhamos, não têm nenhuma relação com sermos ou não destaque regionais ou virarmos uma mega-potência econômica.
Quando você junta pecinhas de um argumento vazio para justificar o aumento do arsenal das Forças Armadas com uma situação política federal de esfacelamento, a luz amarela surge na minha cabeça com um nome claro e bem conhecido nosso: ditadura militar. Daí o alerta.
Que as Forças Armadas precisam se equipar melhor, isto é fato. Agora que elas se equipem pelos motivos corretos.