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Dapieve, literatura pop, ruivas e o Rio de Janeiro

De volta à tela do computador, Bernardinho tentou entender o que acabara de se passar. Era quinta-feira. Ele entregara o CD-R com as músicas do R.E.M. na segunda-feira de manhã. Cautelosamente, evitara travar novo contato com Adelaide, esperando que ela fizesse algum movimento. Nada. Sessenta horas inteiras sem nem um oi. Chegou a pensar que a carona houvesse esgotado tudo o que tinham para viver na vida um do outro. “dramático paca pô” E, como tantas outras mulheres na vida do homem médio, a garota do Leblon estivesse fadada a não ser fodida, fadada a desbotar na memória da bronha. Sem retorno, o tesão arrefece, mais cedo ou mais tarde. (Bem, mesmo com retorno também.) O pensamento de que tudo não passara de coisa alguma chegava a reconfortar Bernardinho. “ao menos o impulso de comê-la está mostrando que os sistemas estão funcionando”, pensara, na terça-feira à tarde ou na quarta-feira à noite. Então, sem mais nem menos, ela entra na sua sala e, diante de seus colegas de trabalho, demonstra uma intimidade que eles sequer imaginavam. Pior: uma intimidade passada que insinuava uma intimidade futura ainda meior. Melhor: uma intimidade passada que prometia uma intimidade futura ainda maior.

Este é um dos parágrafos do romance de estréia de Arthur Dapieve, “De cada amor tu herdarás só o cinismo”. O livro, de 2004, caiu nas minhas mãos por acaso, ao bisbilhotar uma pilha de livros desorganizados no apartamento de um grande amigo que sempre me hospeda quando tenho a sorte de ir ao Rio de Janeiro.

Apesar do título, trecho de O mundo é um moinho, uma das canções mais famosas de Cartola, o livro começa no fim do show do R.E.M. no Rock In Rio 3, dia 14 de janeiro de 2001, no fim de It’s the end of the world as we know it (and I feel fine) – que, aliás, realmente foi a última música do show real no dia 14/1/2001. O conflíto novo-fenômeno-revival-da-música-brasileira vs. rock-é-a-única-coisa-digna-no-mundo (eu ainda acho que os dois convivem lindamente) é mais um dos conflítos que temperam o relacionamento de Bernardinho, publicitário quarentão, e Adelaide, ninfetinha do Leblon, sua estagiária.

O livro é delicioso do início ao fim e vale cada centavo por ser uma visão bem humorada sobre relações (em diversos níveis e formas), música brasileira, música pop, auto-mazelice e as eternas buscas sem propósito que nós, gente, travamos dia a dia.

Dapieve, jornalista e colunista do Caderno 2 do O Globo desde que o mundo é mundo (calcula-se que isto seja desde 1993), tem dois livros sobre rock brasileiro e tem a veia pop nos temas e nas formas de escrever.

Divirtam-se.

Posted in Leitura, Música.


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