Todos estes jovens fotógrafos trabalhando mundo afora, que determinam o momento da captura fotográfica, não sabe que eles são agentes da morte. Esta é a forma como nosso tempo assume a morte: o álibe da negação do que está distraidamente “vivo”, do qual o fotógrafo é, de certa maneira, o profissional.
Roland Barthes – A Câmara Clara – Tradução livre
Quando encontrei, no site da Revista Trip, uma matéria sobre o projeto Noch Mal Leben, a primeira lembrança que me veio foi a angústia de ler A Câmara Clara, e ter rotulado junto com uma legião de fotógrafos e wanabes, dentre outras coisas, de um agente amador da morte.
O projeto Noch Mal Leben (algo como “viver de novo”) foi idealizado por Walter Schels, fotógrafo alemão, e sua esposa, a também alemã e jornalista Beate Lakotta. A idéia é fotografar e tomar depoimento de pessoas com enfermidades sem cura em dois momentos: vivas, enquanto internadas em instituições para cuidar destes tipos de caso, e logo depois de morrerem.
O projeto aborda o que os autores classificam como o último tabu social, pelo menos do ponto de vista cronológico: a morte e o morrer. Por tabela, questões como a força documental da fotografia e do jornalismo também surgem deste contexto onde a única certeza de que todos nós temos é posta em evidência: iremos morrer algum dia.
Aliás, enfrentar esta constatação seriamente faz com que percebamos o quão incrédulos nós mesmos somos nesta certeza. Heiner Schmitz, em seu depoimento, fala (tradução livre):
Ninguém me pergunta como me sinto. Porque todos estão terrivelmente assustados. Me aborreço muito pela forma desesperada que todos evitam o assunto, conversando sobre todo tipo de coisas. Será que eles não entendem? Eu vou morrer! Isto é tudo que eu consigo pensar a respeito quando estou sozinho.
O primeiro retrato de Heiner Schmitz foi tirado em 19 de novembro de 2003. Ele faleceu no dia 14 de dezembro do mesmo ano.
Yet hardly anyone here is devoid of hope: they hope for a few more days; they hope that a dignified death awaits them or that death will not be the end of everything.


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